Plataforma21 - Representatividade asiática: Uma entrevista com Lian Tai

Representatividade asiática: Uma entrevista com Lian Tai

Com o lançamento do livro “Nasci para Brilhar”, onde navegamos a história da Skye Shin, uma jovem de 16 anos, bissexual e descendente de coreanos que mora nos EUA, convidamos algumas influenciadoras asiática para contarem sobre suas experiências pessoais, suas trajetórias profissionais e qual a visão delas sobre a mídia e a representatividade asiática. Nossa primeira convidada é Lian Tai. Confira abaixo sua história: 


1. Antes de mais nada, conte um pouco sobre você.

Meu nome é Lian Tai. Meu pai e minha mãe são chineses, ambos vieram ao Brasil adolescentes, se conheceram em São Paulo e foram morar em Goiânia, onde eu e minha irmã nascemos. Cresci em Goiânia, onde fiz faculdade de Jornalismo. Em seguida me mudei para o Rio de Janeiro, para fazer mestrado. No meio do mestrado, comecei a trabalhar como modelo publicitária e acabei tendo a oportunidade de atuar em um longa-metragem chamado “Destino”, produzido pela atriz Lucélia Santos, que me deu a oportunidade de conhecer e filmar na China. Como fui tendo oportunidades como atriz, após o mestrado me matriculei na Casa de Artes de Laranjeiras, onde me formei em Teatro, pois até então minha única experiência havia sido no grupo de teatro da escola, mais nova. Após concluir o curso de Teatro, iniciei meu Doutorado em Comunicação Social na Universidade Federal Fluminense. Em 2016 defendi o doutorado e publiquei o livro “Crônicas de Varanasi”, sobre o período de três meses em que morei na cidade indiana, fazendo minha pesquisa de doutoramento. Em seguida iniciei o curso de Direção de Cinema, na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Em 2017 fui uma das fundadoras do Slam das Minas RJ, coletivo feminista de poesia falada. Em 2018 nasceu minha filha, Paz. Hoje divido meu tempo entre a maternidade, a escrita, a atuação e alguns trabalhos como modelo.

2. Houve algum momento em sua vida que você sentiu que asiáticos eram representados de forma estereotipada na mídia? 

Durante muito tempo da minha vida, lembro que os asiáticos não eram representados absolutamente na mídia. Hoje a maioria das representações são estereotipadas.

3. Você já passou por alguma situação onde ser asiática foi um fator determinante de julgamento, expectativa e afins?

As expectativas e julgamentos, ligados aos estereótipos, se mostram de forma muito sutil, por isso não consigo me lembrar de alguém ter verbalizado determinado julgamento por eu ser oriental, mas durante minha vida escolar, a partir de certo momento me tornei rebelde, tirava notas baixas, não assistia às aulas, mesmo tendo facilidade de aprendizado. Eu queria fugir ao estereótipo de oriental cdf.

4. Profissionalmente, você já sofreu racismo?

Racismo como agressão direta em meio profissional nunca sofri. Mas acho que o racismo se mostra na própria função que te chamam para desempenhar. A grande parte dos personagens que me convidam para interpretar são estereotipados ou apenas estão lá para colorir, dar uma ideia de diversidade, mas não tem função dramática. Então a própria produção e concepção das historias já parte de um princípio racista e excludente.

5. Há algum personagem asiático que você sentiu que foi devidamente representado? Caso sim, cite um favorito.

Há muito tempo que não acompanho a televisão, mas ouvi dizer que recentemente houve uma protagonista oriental em Malhação, interpretada pela Ana Hikari. Ouvi falar bem de sua representatividade, mas não cheguei a assistir a nenhum episódio.

6. Nos conte uma memória importante em sua vida.

A primeira e única vez em que fui à China, para filmar o longa-metragem “Destino”, foi um momento inesquecível, cheio de estranhamentos e reconhecimentos. Ali eu entendi muito quem sou, de onde vim, de onde os meus vieram. Tenho muita vontade de voltar lá.

7. Há algum familiar que você enxerga como referência quando o assunto é a cultura asiática em sua família?

Meu pai, Tai Hsuan-An, é minha grande referência de cultura chinesa. Apesar de ter imigrado ao Brasil aos 15 anos de idade, ele permanece muito ligado à cultura e é um estudioso do país. Meu pai, que é artista plástico, teve como mestre-avô o grande pintor chinês Zhang Daqian, de quem herdou toda a técnica, que hoje mistura com uma estética brasileira. Ele também tem uma vasta pesquisa sobre os ideogramas e publicou o livro “Ideogramas e a cultura chinesa”, que revela muito sobre o pensamento chinês. Atualmente ele escreve um livro para tentar explicar a geopolítica do país aos ocidentais. E hoje tento resgatar minhas raízes comunicando-as para minha filha de dois anos, que canta músicas chinesas e ama a Ópera da China.

8. Por fim, qual a sua opinião sobre a representatividade asiática, hoje, e o que você gostaria de encontrar daqui para frente?

Hoje está em curso um movimento que pretende ampliar a representatividade asiática, graças à internet, que tem possibilitado que múltiplas vozes se manifestem e se conectem. Daqui para frente gostaria de encontrar um Brasil que se reconhece como múltiplo e em que povos como os amarelos não sejam excluídos do que é a própria formação do país. Espero que mais pessoas amarelas tenham voz, que falem por si, que representem a si mesmos.

Lian Tai é modelo, atriz, acadêmica, mãe e muito mais.

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